BDSM
23 abr 2019

BDSM – o gozo além do couro! Felipe B conta tudo

Um lifestyle que chama atenção e desperta curiosidade de muitos é o BDSM!

Sempre recebemos perguntas sobre o tema em nossas redes sociais. A primeira delas sempre é: O que significa essa sigla?

Ela é formada por uma combinação de práticas!

BD – Bondage e Disciplina
DS – Dominação e Submissão
SM – Sadismo e Masoquismo

Pensando em como trazer informação de qualidade sobre isso e focar mais no gozo que queremos do que no couro que alguns vestem, convidamos o Felipe B, cineasta, jornalista e palestrante que está há 30 anos no meio BDSM para um bate-papo.

Confira tudo que ele compartilhou conosco!

Sobre a prática BDSM

Redação ysos (Ry) Quais os princípios mais importantes que as pessoas precisam entender sobre o BDSM?

Felipe B (FB) – Estabelecer uma relação 100% consensual. Nada no BDSM pode ser forçado, mesmo que as práticas escolhidas envolvam servidão, submissão e degradação.

É uma relação entre adultos, mas aconselho que exista alguma forma documental (cartas, e-mails, vídeos) no qual as intenções de todos os participantes de uma “cena” estejam claras.

Não é incomum que se descubra algum tipo de desvio comportamental ou problemas psicológicos no decorrer de uma relação, seja qual for o seu papel. Muitas vezes, supostos DOMs, Masters, Tops resolvem interferir na vida privada de escravos, fora da esfera do BDSM (muitas pessoas não praticam 24/7 ou tem restrições que envolvem sigilo).

Ou então, vemos subs que desenvolvem relacionamento doentio com seus donos e externam uma mistura de posse e ciúme que pode gerar problemas. O cuidado deve ser ainda maior quando os encontros surgem através de apps.

(Ry) O que não deve acontecer em hipótese alguma no meio BDSM?

(FB) Práticas sexuais e físicas que estejam fora do combinado previamente (ou desenvolvido a partir do jogo de concessões gradual). Caso as pessoas envolvidas não tenham certezas sobre a saúde sexual dos demais parceiros, qualquer ato que possa envolver doenças sexualmente transmissíveis deverá ser executado com a devida prevenção.

A combinação de “palavras de segurança” não pode ser evitada.

Deverá ser SEMPRE uma palavra que NÃO deixe dúvidas e NÃO faça parte do repertório erótico dos envolvidos, inclusive nos momentos de humilhação máxima.

O dominador precisa saber os limites. Mais do que o submisso.

Entretanto, é melhor errar a análise e perder um parceiro que acha que você fraquejou do que encarar as consequências judiciais de sequelas físicas e psicológicas permanentes ou mesmo uma morte por acidente.

Além disso, o sigilo da relação deverá ser combinado previamente. Caso todos concordem em tornar a natureza do envolvimento pública, aberta, não existe problema: são todos adultos. Caso uma das pessoas tenha alguma restrição, deve ser respeitada.

Entretanto, todos estão cientes que o corpo poderá ficar marcado, às vezes para sempre, quando um dono marca suas propriedades favoritas, seja com tatuagens e body art, seja com as iniciais em ferro quente. BDSM não é brincadeira de salão, repito.

Eu aprecio que meus brinquedos tenham uma marca permanente. Gosto da sensação de saber que a pessoa seguirá até o final da vida fisicamente marcada pela experiência de submissão completa.

Posso marcar em lugares ao alcance do olhar de todos, ou pode ser uma marca que fará sentido apenas para a pessoa que a leva na pele.

É um modo de vida sério, com práticas muito específicas e que demanda comprometimento.

Por isso, como citei anteriormente, cogite a possibilidade de documentar o que foi acordado entre as partes.

Dicas para quem tem interesse na prática

(Ry) Existe alguma dificuldade enfrentada por singles para se darem bem no meio BDSM? Se sim, alguma dica para contornar esse tipo de situação?

(FB) Singles, transgêneros, não-binários, mulheres e homens enfrentam MUITOS problemas. Listo alguns:

1) DOMs e Masters que são “fake”: prometem conduzir quem era baunilha (praticante de sexo convencional) para dentro da cena, mas não possuem nem conhecimento nem recursos intelectuais para entenderem a responsabilidade que envolve usar o corpo do outro para obter e provocar prazer em práticas extremas.

CUIDADO: muita gente apenas curiosa afirma saber o que fazer mas NÃO possuem experiência. Avalie bem quem serão seus parceiros para que as experiências sejam positivamente inesquecíveis.

2) Singles sem preparo: após o fenômeno “50 Tons” muita gente mistura os canais e não entende que o envolvimento na prática não é encenação, mesmo com pessoas que seguem a liturgia clássica (couro, termos, masmorras etc).

É comum moças chegarem ao final das sessões achando que serão amadas e terão um relacionamento além do combinado.

Com singles que são Dommes ou Masters, idem. Saber identificar se os novos parceiros estão, de fato, preparados para esse universo é fundamental para evitar contratempos e situações potencialmente constrangedoras, como acusações infundadas de violência, com a “vítima” ainda exibindo as marcas de uma sessão.

3) Educação social e cultural: em qualquer relação de lifestyle, a educação social é imprescindível. No BDSM não é diferente.

Mais do que a mera atração estética, comum nas demais formas de relações adultas, no BDSM a “sedução” envolve sua capacidade de persuadir outra pessoa a servir ou ser servido, sem restrições.

Mesmo os subs e switchers precisam estar cientes de que o encantamento não virá apenas de corpos e rostos dentro dos padrões. É bastante frequente que Dommes e DOMs sejam mais maduros.

Cabe aos singles entender que essa é uma realidade na cena, para evitar mal entendido. Não mentir sobre características pessoais é fundamental.

Quando, onde, como e pra quem?

(Ry) Para casais que pensam na prática mas ainda não tiveram coragem de experimentar, algum ponto por onde começar?

(FB) O ponto chave: os dois querem? Mesmo quando a relação é consensual e os dois possuem atração emocional, intelectual e erótica pelo BDSM podem ocorrer descobertas. Fui casado 18 anos com uma submissa extrema, mas que não sentia-se confortável nesse papel dentro do casamento, preferindo a submissão total a outros parceiros, homens e mulheres.

Muitas vezes os papéis escolhidos interferem mais numa relação estável do que nos praticantes que se encontram eventualmente.

Outro ponto a ser considerado é que os papéis podem mudar: muita gente descobre-se switcher (performa em ambas posições: dominador e escravo), de acordo com o parceiro do momento. É preciso ter aceitação, mitigar o ciúme e respeitar a escolha do outro. Seu parceiro ou parceira que é dominador com você poderá desejar ser submisso de outro, ou ainda assumir papéis variados durante uma cena.

Ou pode ser uma pessoa que com você tolera a liturgia completa, mas com outra pessoa poderá mergulhar nas praticas comuns ao BDSM sem empregar rótulos. Ou ainda, descobrir que pode ser mais interessante realizar certas praticas com terceiros. Um exemplo: sua mulher é sub, mas conhece outra dona ou dono e resolve atender aos caprichos, de forma que nunca fez com você.

O preparo emocional para lidar com esses aspectos inusitados do BDSM é fundamental. A prática não é uma festa à fantasia, com fingimentos. Surpresas acontecem o tempo todo.

Importante:

Cabe aos envolvidos uma calibragem constante do envolvimento com a prática BDSM e comportamentos a ela associados. Eu, recentemente, perdi um objeto de uso e desejo por ter me tornado disponível e maleável demais, devido ao envolvimento amoroso. Ela precisava de distanciamento, de servir, ser usada. E eu, apaixonado, “aliviei” a carga que mantinha a relação de dominação com elos mais fortes. Uma mulher casada, que bebia da minha urina para matar a sede e servia-me seus orifícios a todas as práticas mais insanas, repentinamente percebeu que eu andava “presente demais”, amoroso demais. Perdi e aprendi.

Por outro lado, uma outra casada e extremamente submissa, com marido DOM experiente, costuma encontrar-me sozinha, para práticas que ele não se permite fazer com ela. As sessões são bem fortes, ainda que fora da liturgia e dos equipamentos tradicionais.

Na festa PopPorn no Rio de Janeiro, em Abril de 2018 o nível de entrega que ela teve, no espaço público, foi um dos maiores que vivenciei nos últimos 30 anos. Não dá para ficar longe do BDSM assim, hahaha.

(Ry) Que tipo de locais são mais recomendados para a prática? As casas de swing estão prontas para receber os adeptos do BDSM?

(FB) De forma geral, a grande maioria das casas de swing e clubes adultos brasileiros NÃO está preparada para as práticas de BDSM. Seja pela falta de recursos (incluindo apoio discreto a alguma emergência médica), seja pela ausência de funcionários treinados nas especificidades do BDSM.

Práticas como humilhações, amarrações e suspensão, cage (gaiola), age play (brincadeira de idades), urolagnia ou coprofagia (estimulação com urina ou fezes) não tem espaço nos clubes tradicionais de sexo. O que mais acontece é ter um ambiente “enfeitado” com temática BDSM.

Existem algumas festas temáticas que ficam no limite do spanking e podolatria, com seguranças coagindo práticas mais intensas.

O melhor lugar sempre serão os clubes realmente especializados em BDSM, raros no Brasil em comparação ao número de casas de swing.

Realizar as cenas na casa dos participantes é melhor. Em segundo lugar, motéis ou hotéis. E, nas cenas específicas, o espaço público, como levar escravos para dogging ou serem usados como mictório e depósito de esperma por terceiros, nos cinemas, ruas e parques.

Depois de entrar no meio BDSM

(Ry) Existe algum benefício que você nota na sua vida sexual depois que você se envolveu com as práticas BDSM?

(FB) Comecei muito cedo no BDSM, influenciado pela leitura de Sade e toda a literatura pornográfica dos anos 80, que adotava o tema. Essas práticas permearam minha vida, primeiro como submisso e, ao final da adolescência, como switcher e na vida adulta, consolidando o DOM/ Master / Top.

O benefício principal ao longo desses mais de 30 anos e agora, na meia idade, é poder desencanar de neuras com seu corpo. O que importa é sua capacidade de perverter e persuadir um outro ser humano a servir de brinquedinho aos seus mais obscuros desejos eróticos.

Um erro comum é intelectualizar demais o BDSM. Não existem “regras”, como muitos defendem. Cada um descobre o que e como prefere exercer a submissão e dominação.

A quantidade de teorias furadas e liturgias desnecessárias é enorme: muitas vezes pessoas que adorariam serem usadas sem limites por outras evitam a pratica, achando que terão que usar couro, látex e coleiras o tempo todo, rs. Não.

Também é uma oportunidade rica para pessoas com compleições físicas diferentes interagirem eroticamente, rompendo barreiras estéticas comuns entre o povo “baunilha”.

(Ry) Alguma história engraçada, inusitada ou uma lembrança muito especial de algo vivido nesse meio?

(FB) Acidentes acontecem, hahaha. Durante sessões de fist fucking, principalmente quando a pessoa não é adepta de enema, podem acontecer alguns contratempos.

No caso de um DOM experiente, torna-se uma oportunidade de aumentar a punição para a pessoa submissa. Se ele ou ela forem brats, a punição será ainda mais severa. Se for um processo de age play, aproveita-se para um corretivo educativo.

No mais, clamps que apertam demais os mamilos (eu não paro, sorry) de que se achava “super”, mordidas que arrancam pedaços e dormir enquanto o seu brinquedo está amarrado, esperando que a cena continue, hahaha.

Reações ao processo de humilhação no espaço público também costumam ser curiosas. E aumentam a excitação com as perversões e transgressões. Aprecio.

Também rola a cumplicidade de imaginar o que pensa a camareira ao encontrar o lençol batizado após uma sessão de spanking com lanhos que sangram e o resultado dos watersports (chuva dourada/golden shower). Esses resíduos dos jogos pervertidos também fazem parte das delícias do BDSM.

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Felipe B, 50 anos, 30 de BDSM – DOM, Master e Top. Cineasta, Jornalista e palestrante.

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